Acho que sou a última pessoa da blogosfera inteirinha a produzir uma opinião acerca do recém-aprovado acordo ortográfico. Talvez não: pode ser que alguém ande a hibernar e não tenha feito sequer uma menção; a esses, uma vénia.
Nas primeiras abordagens dos media ao tema confesso que me mostrei sempre contra o acordo, defendendo até com um certo afinco que os proponentes da ideia deveriam arranjar qualquer coisa de mais interessante para fazer, como por exemplo trabalhar. Mas a minha atitude radical suavizou-se um pouco quando, nestes últimos dias, andei a informar-me melhor sobre a onda que realmente aí vem - não sobre aquela que muitos andaram a anunciar, inclusivamente em jornais que são pagos e não dados, e que me parecia ridiculamente absurda, envolvendo a transformação da palavra "hoje" em "oje" a título de exemplo. Nada disso! Pelo menos ainda não se lembraram de o propor.
Irá sim, haver uma bateria de modificações no Português falado em Portugal, como a eliminação sucessiva de "c" 's e "p" 's nas palavras em que a articulação dessas letras não se dê em qualquer das formas cultas da língua - exemplos de "actor", "afecto","aspecto" e "óptimo", que passam a "ator", "afeto", "aspeto" e "ótimo". Se formos pensar sobre isso de forma racional, a eliminação destas consoantes não muda em nada a maneira como as palavras são lidas ou ditas e eu sou capaz de aceitar este tipo de mudanças. De facto refugio-me aqui na História para dizer que o facto de o Brasil utilizar neste momento estas palavras mais simplificadas - que os Portugueses vão passar também a utilizar - se deve apenas a um recuo nas intenções do governo de Portugal aquando da concretização de um acordo já estabelecido em 1971 que visava estas mesmas modificações. Assim, desde há muito tempo que o Brasil simplificou a escrita deste tipo de palavras. Há também a dizer que estas medidas de eliminação de letras não são postas em prática quando pode haver nalguma forma do Português enquanto língua culta (bem falada) uma pronunciação dessas mesmas letras: nesse caso as duas formas podem ser utilizadas (como a palavra "recepção", que por ter o seu "p" pronunciado em Português do Brasil mantém esta forma como válida).
Para o Português falado no Brasil, mudam as acentuações igualmente desnecessárias que existiam em palavras como "assembléia" e "enjôo", que passam a ser iguais às formas escritas em Portugal, "assembleia" e "enjoo", e desaparece de vez o trema, ou seja deixam de haver palavras em Português escritas com os dois pontinhos engraçados em cima do "u", como no anterior "tranqüilo", que passou a "tranquilo". No entanto, começa aqui a notar-se uma falha, no meu entender, que é a desaquação desnecessária da escrita à maneira como se lê a palavra, pois vejamos que, nas regras da nossa língua, o "u" não se leria entre um "q" e um "i"; de certa forma o trema estava colocado de forma a assinalar essa particularidade (algo que o Português de Portugal já perdeu há largos anos).
E agora começa a parte mais obscura e, até agora, inexplicável deste acordo.
As críticas começam quando se olha para as modificações introduzidas a nível da acentuação: e não é que agora é indiferente se nós "acabámos" um trabalho num dia ou se "acabamos" um trabalho num dia? Sim, o acordo prevê que ambas as formas sejam passadas para um uniforme "acabamos". E se começámos em formas verbais, pois continuemos com elas ao ver que "pára" será transformado em "para" (lido exactamente da mesma forma!). Não percebo o sentido, não percebo a utilidade, e neste ponto continuo a achar seriamente que os proponentes deste acordo deviam ir mas é trabalhar para as docas de Alcântara a acartar caixotes.
Um ponto final - por agora - neste texto surge com uma memória que tenho de um antigo mestre meu, o professor Callixto, que, no meu 12º ano se fartava de aconselhar mil e uma vezes «Mesmo que vocês não saibam em concreto o que é que uma palavra significa, normalmente têm o benefício de as próprias palavras falarem com vocês, e para isso basta que as separem nos seus constituintes; normalmente em pequenos pedaços que possibilitam uma interpretação quase sempre correcta.». Ele dizia isto referindo-se à quantidade enorme de termos técnicos encontrados pelos estudantes de Biologia, e parece que quem fez o acordo tinha assistido a estas aulas porque nos fez o "favor" de eliminar a maior parte dos hífens que existiam em palavras como "anti-religioso" e "mini-saia" e convertê-las em "antirreligioso" e "minissaia". Desta forma, fundindo mais e mais elementos às palavras (não avancei com palavras muito complexas, mas acreditem que as há!) pode levar-se a quebra-cabeças engraçados na altura em que tivermos de decifrar um palavrão mais manhoso num exame! Mais uma vez não percebo o propósito nem a utilidade. Não está mais simples. As palavras estão maiores e mais complexas. E fazem menos sentido do que antes. O mais estúpido ainda é que estas alterações criticadas aqui foram impostas a todos os países lusófonos e não apenas a algum deles para se ajustar aos outros!
Mais do que por uma questão de "Velhismo-do-Restelo" creio que se deveria seriamente pensar em rever estes pontos. O acordo não unifica e, em grande parte, nem sequer simplifica. Por muito que palavras como "feromônio" e "brócolis" me façam cócegas quando leio algum livro de tradução brasileira, não acho que fosse necessário este acordo. No fundo entendemo-nos todos uns aos outros! Para não falar de que todos os livros que temos nas nossas estantes ficarão virtualmente obsoletos de um momento para o outro...
João C Carvalho
Nas primeiras abordagens dos media ao tema confesso que me mostrei sempre contra o acordo, defendendo até com um certo afinco que os proponentes da ideia deveriam arranjar qualquer coisa de mais interessante para fazer, como por exemplo trabalhar. Mas a minha atitude radical suavizou-se um pouco quando, nestes últimos dias, andei a informar-me melhor sobre a onda que realmente aí vem - não sobre aquela que muitos andaram a anunciar, inclusivamente em jornais que são pagos e não dados, e que me parecia ridiculamente absurda, envolvendo a transformação da palavra "hoje" em "oje" a título de exemplo. Nada disso! Pelo menos ainda não se lembraram de o propor.
Irá sim, haver uma bateria de modificações no Português falado em Portugal, como a eliminação sucessiva de "c" 's e "p" 's nas palavras em que a articulação dessas letras não se dê em qualquer das formas cultas da língua - exemplos de "actor", "afecto","aspecto" e "óptimo", que passam a "ator", "afeto", "aspeto" e "ótimo". Se formos pensar sobre isso de forma racional, a eliminação destas consoantes não muda em nada a maneira como as palavras são lidas ou ditas e eu sou capaz de aceitar este tipo de mudanças. De facto refugio-me aqui na História para dizer que o facto de o Brasil utilizar neste momento estas palavras mais simplificadas - que os Portugueses vão passar também a utilizar - se deve apenas a um recuo nas intenções do governo de Portugal aquando da concretização de um acordo já estabelecido em 1971 que visava estas mesmas modificações. Assim, desde há muito tempo que o Brasil simplificou a escrita deste tipo de palavras. Há também a dizer que estas medidas de eliminação de letras não são postas em prática quando pode haver nalguma forma do Português enquanto língua culta (bem falada) uma pronunciação dessas mesmas letras: nesse caso as duas formas podem ser utilizadas (como a palavra "recepção", que por ter o seu "p" pronunciado em Português do Brasil mantém esta forma como válida).
Para o Português falado no Brasil, mudam as acentuações igualmente desnecessárias que existiam em palavras como "assembléia" e "enjôo", que passam a ser iguais às formas escritas em Portugal, "assembleia" e "enjoo", e desaparece de vez o trema, ou seja deixam de haver palavras em Português escritas com os dois pontinhos engraçados em cima do "u", como no anterior "tranqüilo", que passou a "tranquilo". No entanto, começa aqui a notar-se uma falha, no meu entender, que é a desaquação desnecessária da escrita à maneira como se lê a palavra, pois vejamos que, nas regras da nossa língua, o "u" não se leria entre um "q" e um "i"; de certa forma o trema estava colocado de forma a assinalar essa particularidade (algo que o Português de Portugal já perdeu há largos anos).
E agora começa a parte mais obscura e, até agora, inexplicável deste acordo.
As críticas começam quando se olha para as modificações introduzidas a nível da acentuação: e não é que agora é indiferente se nós "acabámos" um trabalho num dia ou se "acabamos" um trabalho num dia? Sim, o acordo prevê que ambas as formas sejam passadas para um uniforme "acabamos". E se começámos em formas verbais, pois continuemos com elas ao ver que "pára" será transformado em "para" (lido exactamente da mesma forma!). Não percebo o sentido, não percebo a utilidade, e neste ponto continuo a achar seriamente que os proponentes deste acordo deviam ir mas é trabalhar para as docas de Alcântara a acartar caixotes.
Um ponto final - por agora - neste texto surge com uma memória que tenho de um antigo mestre meu, o professor Callixto, que, no meu 12º ano se fartava de aconselhar mil e uma vezes «Mesmo que vocês não saibam em concreto o que é que uma palavra significa, normalmente têm o benefício de as próprias palavras falarem com vocês, e para isso basta que as separem nos seus constituintes; normalmente em pequenos pedaços que possibilitam uma interpretação quase sempre correcta.». Ele dizia isto referindo-se à quantidade enorme de termos técnicos encontrados pelos estudantes de Biologia, e parece que quem fez o acordo tinha assistido a estas aulas porque nos fez o "favor" de eliminar a maior parte dos hífens que existiam em palavras como "anti-religioso" e "mini-saia" e convertê-las em "antirreligioso" e "minissaia". Desta forma, fundindo mais e mais elementos às palavras (não avancei com palavras muito complexas, mas acreditem que as há!) pode levar-se a quebra-cabeças engraçados na altura em que tivermos de decifrar um palavrão mais manhoso num exame! Mais uma vez não percebo o propósito nem a utilidade. Não está mais simples. As palavras estão maiores e mais complexas. E fazem menos sentido do que antes. O mais estúpido ainda é que estas alterações criticadas aqui foram impostas a todos os países lusófonos e não apenas a algum deles para se ajustar aos outros!
Mais do que por uma questão de "Velhismo-do-Restelo" creio que se deveria seriamente pensar em rever estes pontos. O acordo não unifica e, em grande parte, nem sequer simplifica. Por muito que palavras como "feromônio" e "brócolis" me façam cócegas quando leio algum livro de tradução brasileira, não acho que fosse necessário este acordo. No fundo entendemo-nos todos uns aos outros! Para não falar de que todos os livros que temos nas nossas estantes ficarão virtualmente obsoletos de um momento para o outro...
João C Carvalho
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